Reportagem da Folha de São Paulo, publicada nesta sexta-feira (6), ajuda a explicar a saída do governaodr de Goiás, Ronaldo Caiado, hoje no PSD, do União Brasil e lança luz sobre o que, de fato, estava em jogo nos bastidores da recém-criada federação União Progressista, formada por PP e União Brasil. Longe de uma simples divergência interna, o movimento que empurrou Caiado para fora do partido revela um veto político deliberado ao seu projeto presidencial.
O pano de fundo desse veto ganha contornos ainda mais claros com a informação publicada pela Folha. Segundo a reportagem, o presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira, teria se reunido com o presidente Lula (PT) às vésperas do Natal, em um encontro descrito como cordial na Granja do Torno, residência oficial do petista, mas mantido fora da agenda oficial. O objetivo não era trivial: reaproximar-se do petista para costurar um acordo que assegurasse sua própria sobrevivência eleitoral no Piauí, estado governado pelo PT e de forte inclinação lulista.
Em troca do apoio de Lula — ou, ao menos, da concentração desse apoio em apenas um nome ao Senado — Ciro acenaria com a neutralidade do PP na disputa presidencial, afastando a federação da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). O encontro, segundo a Folha, foi confirmado por cinco pessoas. Nogueira estaria acompanhado do deputado Hugo Mota (Republicanos-PB), presidente da Câmara.
Essa articulação, nada ortodoxa, ajuda a explicar a resistência interna ao nome de Caiado dentro da União Progressista. Um partido que flerta com a neutralidade diante de Lula não poderia, ao mesmo tempo, sustentar um pré-candidato competitivo da direita ao Planalto. O veto a Caiado passa a ser menos ideológico e mais funcional: eliminaria um obstáculo a um acordo de conveniência que atenderia interesses individuais. O cheiro de traição é evidente, sobretudo para um campo político que se apresenta como oposição ao lulismo e que cobra coerência de seus líderes.
Ciro Nogueira, ex-ministro de Jair Bolsonaro, parece agir movido exclusivamente pela lógica da autopreservação. Ao tentar sacrificar o projeto presidencial de Caiado, ele retalia um aliado e expõe a fragilidade de qualquer compromisso programático à direita. As atitudes do pepista soam traição ao bolsonarismo ao negociar neutralidade, ao União Brasil ao esvaziar sua relevância nacional e ao próprio Ronaldo Caiado ao operar nos bastidores para inviabilizá-lo. No fim, o episódio escancara o custo de submeter projetos políticos coletivos aos cálculos pessoais de um cacique do Centrão disposto a tudo para salvar o próprio mandato.