A reação da vereadora de Goiânia Aava Santiago à ação judicial movida pelo PSDB para retomar seu mandato elevou o conflito político a um novo patamar. Em vídeo publicado nas redes sociais, a parlamentar, hoje filiada ao PSB, não apenas confirmou que deixou o partido sem amparo legal — já que vereadores não dispõem de janela partidária neste ano — como também insinuou que seu padrinho político, o ex-governador Marconi Perillo, pré-candidato ao governo de Goiás, não sustentou a palavra dada.
Segundo Aava, havia um acordo político para uma saída “harmônica”, com garantias de que o partido não buscaria judicialmente a perda de seu mandato. A ação, contudo, foi apresentada pelo diretório municipal do PSDB em Goiânia, presidido por Matheus Ribeiro, com respaldo do presidente estadual da sigla, o deputado Gustavo Sebba.
Ao reconhecer explicitamente que a legislação eleitoral não lhe permitiria a troca de partido fora da janela, Aava admite, na prática, o ponto central da ação judicial: o mandato pertence ao partido. A própria vereadora afirmou ter se apoiado não na lei, mas na palavra de Perillo para deixar o PSDB.
O argumento político, porém, não encontra respaldo jurídico, o que explica a ofensiva da legenda para reaver a cadeira. O caso ilustra o risco de acordos informais em ambientes partidários altamente competitivos, sobretudo quando a disputa por espaço político se intensifica no período pré-eleitoral. Ao transformar o impasse em uma disputa pública, Aava sinaliza que o rompimento com seu antigo grupo político dificilmente terá retorno.
O tom adotado pela vereadora também indica que o conflito pode extrapolar o terreno jurídico e migrar para um confronto político direto. Ao lembrar dos “desgastes” que diz ter assumido em nome da lealdade a Perillo — especialmente durante o período em que o ex-governador enfrentou críticas decorrentes do passivo administrativo e financeiro deixado ao final de seu ciclo de governo —, Aava sugere que poderá expor bastidores que, até então, evitava trazer à tona.
Há, ainda, um componente discursivo que merece análise crítica. Ao iniciar o vídeo tentando enquadrar a disputa sob uma ótica identitária, Aava busca deslocar o debate jurídico para o terreno político-simbólico. Ao afirmar que “um pequeno grupo de homens” estaria tentando retirar o mandato da “mulher mais votada da história de Goiânia”, a vereadora tenta associar a ação judicial a um suposto machismo partidário.
No entanto, a estratégia retórica esbarra no fato de que a própria parlamentar admite conhecer a vedação legal para sua desfiliação. Assim, o embate que, em essência, é jurídico-partidário acaba sendo revestido de uma narrativa identitária que pouco altera o mérito da questão: a legislação eleitoral é clara ao estabelecer que o mandato proporcional pertence ao partido, e não ao eleito. A tentativa de politizar o episódio pode mobilizar militância e redes sociais, mas dificilmente terá peso decisivo nos tribunais.
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