A defesa intransigente da oposição pela anistia ampla, geral e irrestrita para Jair Bolsonaro revela-se um erro estratégico que pode custar caro ao campo conservador a pouco mais de um ano da eleição presidencial.
As pesquisas apontam que a maioria da população rejeita a ideia de anistia (61%, segundo Datafolha), e a insistência bolsonarista em empurrar o projeto para o centro do debate público tende a ampliar a rejeição não apenas ao núcleo radical, mas também à direita tradicional e ao centro, eleitorado decisivo nas disputas nacionais.
O texto apresentado pela oposição é, além de juridicamente questionável, politicamente desastroso: ao prever perdão para crimes cometidos desde 2019 — e até para os que eventualmente venham a ocorrer —, transforma-se num escárnio contra a sociedade, afronta a lógica democrática e explicita o viés golpista de seus defensores.
Nesse cenário, o presidente Lula (PT), pré-candidato à reeleição, emerge como o maior beneficiado. O petista, que busca consolidar sua imagem de defensor da soberania, da ordem institucional e da justiça, encontra no desatino oposicionista a chance de ampliar sua narrativa.
Cada movimento em favor da anistia fortalece o discurso lulista de que o Brasil estaria se curvando a interesses obscuros e de que a oposição não busca proteger a democracia, mas apenas salvar Bolsonaro de condenações.
Anistia é uma pauta tóxica para a direita
A insistência pela anistia, portanto, é absolutamente contraproducente para a oposição, sobretudo para a direita tradicional, avaliam especialistas. A pauta já nasce tóxica e de alto risco eleitoral.
A direita e o centro-direita erram ao se deixar arrastar pela extrema-direita e podem perder ainda mais espaço ao insistir num tema que a sociedade não apoia. O resultado, se mantida a aposta, será um Lula mais forte e uma oposição mais fragilizada.
Texto apresentado pelo PL derrubaria inelegibilidade de Bolsonaro
O texto da anistia apresentado pelo líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), perdoaria acusados de atentar contra a democracia desde o início do inquérito das fake news no STF, aberto em 2019, passando pelo 8 de janeiro, pelos acampamentos golpistas e pelas acusações a Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que é acusado de atentar contra a soberania nacional.
O projeto do bolsonarista prevê, também, a derrubada da inelegibilidade de Jair Bolsonaro, decretada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2023.