O bolsonarismo, que sempre se apresentou como um movimento defensor intransigente da liberdade econômica e apelo nacionalista, agora escancara sua profunda contradição. Durante a pandemia da covid-19, que matou mais de 700 mil brasileiros, Jair Bolsonaro e seus aliados atacaram sistematicamente as medidas de isolamento social adotadas por governadores e respaldadas pelo Supremo Tribunal Federal. A alegação era de que tais ações, voltadas à contenção do vírus e à espera da chegada da vacina, seriam um atentado contra a economia e provocariam desemprego e fome.
Naquele contexto, o então presidente Bolsonaro priorizou a atividade econômica, mesmo que isso custasse vidas. Fez campanha contra o uso de máscaras, desprezou a gravidade da doença, atrasou a compra de vacinas e sabotou qualquer tentativa de coordenação nacional. O discurso era claro: qualquer sacrifício econômico era inaceitável para preservar vidas. A retórica ganhou força entre seus seguidores, que passaram a repetir os mantras do negacionismo sanitário em nome da liberdade individual e da proteção ao mercado.
No entanto, o mesmo grupo político que dizia defender o Brasil e sua economia agora silencia — ou pior, apoia — a ofensiva tarifária de Donald Trump contra o Brasil. As tarifas de 50% sobre produtos brasileiros exportados para os EUA têm potencial devastador para setores estratégicos da economia nacional, como o agronegócio, a indústria e a mineração. O resultado prático será o fechamento de mercados, retração de exportações, aumento do desemprego e, ironicamente, retração econômica, justamente os argumentos usados por Bolsonaro contra as medidas sanitárias durante a pandemia.
Essa guinada revela o verdadeiro compromisso do bolsonarismo: não com a nação, nem com a economia, e muito menos com o povo, mas com a autopreservação de sua cúpula. Ao aceitar as imposições de Trump — e até financiar a estadia do filho Eduardo Bolsonaro nos EUA para promover ataques ao Brasil — Bolsonaro comprova que está disposto a sacrificar os interesses nacionais para escapar de sua própria responsabilização criminal. A incoerência é flagrante: antes, vidas não podiam custar a economia; agora, a economia pode ser destruída para salvar um único homem do cárcere. É o bolsonarismo em sua forma mais perversa e autodestrutiva.