Setores da direita começaram a externar dúvidas sobre as reais intenções do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que lidera uma caminhada até Brasília sob o argumento de chamar a atenção das autoridades para a situação de Jair Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos, que está preso na Papudinha. Embora o gesto seja apresentado como um ato de solidariedade e pressão política por uma eventual prisão domiciliar, interlocutores da própria direita avaliam que a iniciativa carrega mais ambiguidades do que consensos, sobretudo em um momento de redefinição estratégica do campo conservador.
Na leitura de integrantes da direita menos radical, Nikolas não estaria plenamente comprometido com o objetivo de garantir a Bolsonaro uma medida mais branda, tampouco em reabrir, de forma eficaz, o debate sobre uma possível anistia ao ex-presidente. A avaliação é de que o deputado estaria, antes, buscando consolidar protagonismo junto a um núcleo radical que perdeu tração política com a prisão de Bolsonaro e o consequente esvaziamento do bolsonarismo como força hegemônica. Nesse sentido, a mobilização serviria mais à construção de uma liderança própria do que à defesa concreta do ex-presidente.
Com Bolsonaro fora do jogo imediato, o foco de parte expressiva da direita já se deslocou para as eleições de outubro e para a necessidade de construir um nome competitivo contra o presidente Lula, capaz de dialogar com o centro e com eleitores menos ideologizados. É justamente nesse ponto que a caminhada liderada por Nikolas passa a ser vista como contraproducente. Para seus críticos, o movimento não agrega valor à direita moderada nem ajuda a ampliar pontes com o centro político, onde se concentram os votos decisivos para qualquer projeto presidencial viável.
Os críticos mais duros vão além e classificam a ação como personalista, alertando que a exposição e o confronto simbólico podem, inclusive, endurecer ainda mais as decisões do Supremo Tribunal Federal, fechando portas para uma prisão domiciliar que vinha sendo tratada de forma discreta por Michelle Bolsonaro. Em síntese, cresce dentro da própria direita a percepção de que Nikolas mais atrapalha do que ajuda, ao passar a mensagem de que prefere Bolsonaro como mártir útil ao seu projeto político pessoal, e não necessariamente livre.