A saída abrupta de Ana Paula Rezende do MDB, onde ocupava a vice-presidência estadual, para se filiar ao PL bolsonarista e se apresentar como pré-candidata a vice na chapa encabeçada por Wilder Morais, embora se reconheça o caráter democrático e de absoluta liberdade de escolha, impõe uma reflexão que ultrapassa o movimento tático-eleitoral.
Não se trata apenas de uma troca de legenda, mas de um gesto carregado de simbolismo histórico. Ao invocar o discurso da coragem e da defesa do legado do pai, Ana Paula tenta ancorar sua decisão na memória de Iris Rezende Machado. Ocorre que, ao revisitar a trajetória do ex-governador, ex-prefeito de Goiânia, ex-senador e ex-ministro, percebe-se um contraste eloquente entre a coerência partidária que marcou sua vida pública e a opção adotada agora por sua filha.
Iris construiu sua biografia política dentro do MDB — partido ao qual dedicou mais de cinco décadas de militância — enfrentando derrotas internas, pressões externas e até ameaças veladas durante o regime militar. Às vésperas de ter o mandato cassado pelo AI-5, em 1969, recusou a investida da Arena, mesmo diante da chantagem explícita de que “quem não estivesse na Arena não teria água”. Sua resposta foi categórica: não ingressaria em uma legenda que sustentava um governo de arbítrio. A fidelidade partidária, para Iris, não era conveniência circunstancial, mas compromisso ideológico e histórico.
Em 1989, após perder a convenção do MDB para Ulysses Guimarães na disputa presidencial, Iris novamente foi instado a deixar o partido. Recebeu propostas articuladas pelo então presidente José Sarney e pelo ministro Antônio Carlos Magalhães para concorrer por outra sigla. Ainda assim, permaneceu onde sempre esteve. Disse que sair seria “se violentar”. A frase não é retórica vazia: traduz a compreensão de que projeto político se constrói no interior das instituições partidárias, mesmo sob frustrações e dissensos.
É justamente esse ponto que fragiliza o argumento de continuidade apresentado por Ana Paula. Ao migrar para um partido que abriga correntes que relativizam ou negam a ditadura militar — regime que perseguiu e cassou seu pai —, a decisão soa menos como afirmação de legado e mais como ruptura com uma de suas bases estruturantes: a lealdade partidária e a coerência ideológica. Iris ensinava que o partido deve buscar o poder para executar seus projetos, e que os políticos devem evitar atalhos que comprometam princípios. Sua trajetória é de permanência, resistência e construção interna. A história de Iris é de coerência; a escolha de Ana Paula, ao menos sob esse prisma, caminha em sentido oposto.
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