Na solenidade de instalação da 4ª Sessão Legislativa Ordinária da 20ª Legislatura da Assembleia Legislativa de Goiás, na última quarta-feira (18), o discurso do deputado estadual Antônio Gomide (PT) soou além do protocolo. Diante do governador Ronaldo Caiado (PSD), do vice Daniel Vilela (MDB) e de chefes de Poderes, o petista adotou tom que, para aliados da base, levantou suspeitas: haveria um aceno ao ex-governador Marconi Perillo (PSDB) mirando as eleições de outubro?
A desconfiança nasce menos pelo que foi dito e mais pelo que deixou de ser dito. Ao criticar a atual gestão, Gomide (foto) evitou revisitar fatos amplamente conhecidos sobre o legado fiscal tucano. Não mencionou, por exemplo, o rombo auditado pela área técnica do Tribunal de Contas do Estado de Goiás (TCEGO) que apontou déficit de caixa de quase R$ 6,5 bilhões ao fim de 2018.
Tampouco aprofundou o impacto da venda da Celg, em 2016, operação que gerou prejuízo superior a R$ 7 bilhões aos cofres estaduais. Ao lançar dúvidas sobre a narrativa da “herança maldita”, o parlamentar relativizou dados que embasaram, nos últimos anos, o discurso de reconstrução fiscal do atual governo.
Caiado reagiu no próprio plenário. Lembrou ter assumido o Estado com apenas R$ 11 milhões em caixa e dívidas acumuladas superiores a R$ 6,4 bilhões. Corrigiu também números apresentados pelo petista sobre o endividamento do Estado: segundo o governador, a dívida consolidada bruta caiu de 93% para cerca de 62% da Receita Corrente Líquida, enquanto a dívida consolidada líquida, hoje em torno de 32% da RCL, seria a menor da história recente.
Ao contrário do cenário que recebeu, Caiado prometeu que entregará o governo a Daniel Vilela com uma robusta disponibilidade de caixa, estimada em mais ou menos R$ 9,8 bilhões.
Expectativa de aliança PT x PSDB
Nos bastidores, palacianos interpretaram o discurso de Gomide como ensaio calculado para não desgastar Marconi. Embora a presidente estadual do PT, deputada federal Adriana Accorsi, negue conversas abertas e sustente a tese de candidatura própria, a leitura governista é de que a esquerda ainda nutre expectativa de uma composição com o PSDB.
Isolado e com poucas alternativas competitivas, o grupo marconista poderia ver na aliança com o PT uma tábua de sobrevivência para enfrentar uma robusta candidatura à reeleição de Daniel Vilela. Se é estratégia ou coincidência retórica, o tempo — e as articulações — dirão.
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