O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, parece ter se perdido no próprio cálculo político. Após o desgaste provocado por sua posição inicial sobre a imposição de tarifas ao Brasil — o chamado “tarifaço de Trump” —, tenta agora se reposicionar ao lado da extrema-direita em defesa de Jair Bolsonaro (PL), mas escorrega feio ao insinuar que o Brasil não possui eleições livres. A declaração, feita em reação às medidas cautelares impostas pelo ministro Alexandre de Moraes ao ex-presidente, coloca Tarcísio em rota de colisão com a realidade democrática do país e expõe sua disposição de flertar com o negacionismo institucional para manter-se em sintonia com a base bolsonarista.
Ao afirmar que “não haverá paz social sem eleições livres, justas e competitivas”, Tarcísio adota um discurso ambíguo, mas carregado de insinuações. A frase, além de ecoar a retórica golpista usada por Bolsonaro, coloca em dúvida a lisura do processo eleitoral brasileiro, um sistema reconhecido por sua eficiência, segurança e transparência. Essa escolha narrativa não é ingênua: trata-se de uma tentativa deliberada de manter laços com o bolsonarismo, que ainda detém força eleitoral significativa, especialmente entre setores mais conservadores.
No entanto, ao trilhar esse caminho, Tarcísio se arrisca não apenas politicamente, mas também juridicamente. Ao endossar, ainda que de forma indireta, a tese de que há um desequilíbrio institucional ou que o Judiciário age politicamente, ele se aproxima perigosamente de uma linha que já levou outros aliados de Bolsonaro a responderem perante o Supremo Tribunal Federal. O desejo de viabilizar uma candidatura presidencial com apoio do ex-presidente e de seu grupo pode acabar se tornando um passivo jurídico e ético para o próprio Tarcísio.
É lamentável que o medo de perder apoio eleitoral leve políticos que se autoproclamam da direita tradicional, moderados ou técnicos a embarcarem na retórica do bolsonarismo radical. Em vez de exercer liderança responsável e contribuir para o fortalecimento da democracia, Tarcísio opta por repetir falas que corroem a confiança nas instituições e no sistema eleitoral. Essa postura não apenas compromete sua credibilidade como gestor, mas o posiciona como mais um a compactuar com a erosão democrática — um preço alto a se pagar por cálculo eleitoral de curto prazo.