Mais uma vez, aliados históricos da família Bolsonaro descobriram, da pior forma, que foram usados em uma narrativa construída sem que tivessem acesso aos fatos reais. A reação imediata de governadores de direita — como Ratino Jr, Ronaldo Caiado, Tarcísio de Freitas, Jorginho Mello e Romeu Zema — revela o impacto de terem sido levados a defender o ex-presidente sob premissas incompletas. Quando classificaram a decisão do ministro Alexandre de Moraes como desproporcional, nenhum deles sabia que Bolsonaro havia tentado romper a tornozeleira eletrônica, informação decisiva que justificou a decretação da prisão preventiva.
O mais grave é que, ao que tudo indica, pessoas próximas ao ex-presidente tinham pleno conhecimento do episódio, mas omitiram deliberadamente o fato aos governadores. Ao esconderem a tentativa de rompimento — já confessada pelo próprio Bolsonaro à Secretaria Penitenciária do DF —, atores do próprio núcleo bolsonarista deixaram que aliados expusessem sua credibilidade pública em defesa de uma versão insustentável. A falta de transparência fragiliza o discurso da direita institucional e coloca esses governadores como vítimas de um jogo interno que desconheciam.
Essa “pegadinha” articulada, segundo aliados, pelos próprios filhos de Bolsonaro, aprofunda a sensação de desgaste e revela o isolamento progressivo da família no campo político. Ao comprometerem a imagem dos governadores, os filhos do ex-presidente não apenas ampliam o desgaste do pai, mas também corroem a confiança de lideranças que, até aqui, se colocaram como sustentáculo do seu legado. A crise expõe, mais uma vez, a dificuldade do bolsonarismo de operar com responsabilidade institucional — e o custo político recai justamente sobre aqueles que ainda tentam defendê-lo.