O encerramento da famigerada caminhada liderada pelo deputado bolsonarista mineiro Nikolas Ferreira (PL), em Brasília, na tarde deste domingo (25), foi marcado por um episódio tão trágico quanto simbólico: a queda de um raio em meio aos apoiadores reunidos na Praça do Cruzeiro, que deixou quase uma centena de feridos.
A marcha, que teria percorrido cerca de 240 quilômetros entre Paracatu (MG) e a capital federal, pretendia se apresentar como um gesto de solidariedade e pressão política em favor de uma eventual prisão domiciliar de Jair Bolsonaro. No entanto, o desfecho do ato acabou impondo uma narrativa incontornável, que extrapola o discurso político e lança sombras sobre o sentido e o momento da mobilização.
Mesmo antes do acidente, interlocutores da própria direita já avaliavam a iniciativa com desconfiança. Longe de representar um consenso no campo conservador, a caminhada foi vista como carregada de ambiguidades, sobretudo em um período de reorganização estratégica da direita brasileira.
Para alguns, Nikolas buscou ocupar o vácuo simbólico deixado por Bolsonaro, ensaiando um protagonismo nacional de longo prazo e mirando, desde já, o horizonte de 2034, quando terá idade para disputar o Planalto. Para outros, a mobilização soou mais como um ato personalista do que como uma ação capaz de unificar ou fortalecer o campo político que diz representar.
Há, contudo, uma leitura ainda mais dura, feita por críticos do bolsonarismo, inclusive à direita do espectro político. Para esses setores, o movimento carregou ecos perigosos do 8 de janeiro, sendo interpretado como uma tentativa de reedição de estratégias de confronto institucional e de estímulo à desestabilização democrática.
Nessa visão, a caminhada não seria apenas um ato simbólico, mas parte de uma narrativa persistente de contestação ao sistema democrático, a mesma que levou Bolsonaro à prisão e à condenação a 27 anos e três meses de reclusão. A concentração em Brasília, nesse contexto, soou menos como solidariedade e mais como provocação calculada.
Independentemente das intenções atribuídas a Nikolas Ferreira, o fato é que o raio acabou ofuscando completamente o desfecho do ato. Embora o deputado ainda tenha discursado, o impacto do episódio — que feriu ao menos 70 pessoas, oito delas em estado grave — deslocou o foco da manifestação. Para muitos, sobretudo entre aqueles que associam política e fé, o episódio ganhou contornos de “sinal dos céus”, um aviso de que o movimento não estaria em sintonia com os valores que diz defender.
Crença à parte, a avaliação política permanece: o bolsonarismo segue emitindo sinais de que não abandonou a tentação golpista. Resta saber se, entre discursos religiosos e apelos divinos, seus líderes e seguidores serão capazes de compreender que a democracia não comporta mais aventuras travestidas de fé ou devoção.