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Artigo de Opinião

O legado de Iris Rezende e os desafios de sua preservação histórica

Em última instância, não é a memória que eterniza um líder, mas a capacidade de sua obra dialogar com a história — e de ser preservada com integridade por aqueles que dela se dizem herdeiros

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Iris Rezende Machado: quatro vezes prefeito de Goiânia e duas vezes governador de Goiás

A distinção entre memória e história é um dos pontos centrais dos estudos clássicos da historiografia contemporânea. Enquanto a memória é viva, afetiva e frequentemente seletiva — moldada por experiências individuais e coletivas —, a história busca a sistematização crítica dos fatos, ancorada em evidências, contexto e interpretação.

A memória celebra; a história julga. A memória aproxima; a história distancia. É nesse intervalo entre lembrança e análise que se constrói, ou se desfaz, a permanência de um nome no tempo. A trajetória de Iris Rezende Machado oferece um caso exemplar dessa tensão.

Ao longo de 62 anos de vida pública, Iris ocupou praticamente todos os postos relevantes da política brasileira: foi vereador, deputado estadual, senador, ministro de Estado, governador por duas vezes e prefeito de Goiânia por quatro mandatos. Sua presença constante no imaginário popular goiano alimenta uma memória política marcada por obras, proximidade com a população e forte simbolismo pessoal.

Para muitos, Iris é lembrado como o gestor que “fazia”, que percorria bairros, que encarnava a política como ação direta. Essa memória, construída no cotidiano e reforçada por gerações, é poderosa — mas, por si só, não basta para assegurar um lugar definitivo na história.

Isso porque a história exige mais do que lembranças afetivas ou narrativas consagradas. Ela cobra coerência entre discurso e prática, entre legado material e impacto estrutural, entre a figura pública e os valores que resistem ao tempo.

Quatro anos depois da morte de Iris Rezende, uma provocação é necessária: a própria história pode sofrer desvios quando aqueles incumbidos de preservar a memória passam a instrumentalizá-la.

Herdeiros políticos, familiares ou intérpretes autorizados de um legado podem, inadvertidamente — ou por interesses individuais —, tensionar a narrativa histórica ao tentar moldá-la conforme conveniências do presente.

Quando a memória é manipulada para justificar práticas que não dialogam com a trajetória original, corre-se o risco de produzir um ruído entre o que foi e o que se pretende que tenha sido.

História sofre desgaste

Nesses casos, não é apenas a memória que se distorce; é a própria história que sofre desgaste. O desafio, portanto, ao se analisar o legado de Iris Rezende, está em compreender que sua trajetória ultrapassa o campo da memória afetiva para se firmar como história consolidada — e entender em que medida ela é fielmente representada por aqueles que a evocam.

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