A pré-candidatura do ex-governador Marconi Perillo (PSDB) ao Palácio das Esmeraldas em 2026 carrega um dilema estrutural que beira o paradoxo político. Após duas décadas como figura central da política goiana — período em que liderou um grupo vitorioso em sucessivas eleições entre 1998 e 2014 —, Marconi retorna ao debate amparado pelo recall eleitoral de quem disputou todas as eleições majoritárias estaduais desde 1998.
Esse capital simbólico o mantém competitivo, como demonstra a pesquisa Genial/Quaest, que o posiciona com 21% das intenções de voto, em segundo lugar. No entanto, esse mesmo passado que o sustenta também o aprisiona: o tucano lidera com folga o índice de rejeição, alcançando 50%, segundo a pesquisa, um patamar que, isoladamente, compromete a viabilidade de qualquer projeto majoritário. É justamente nessa tensão que reside o paradoxo.
Para existir politicamente, Marconi precisa se apresentar como protagonista de sua própria história, evocando realizações e capitalizando sua longa trajetória. Mas, ao fazê-lo, reativa também as memórias negativas associadas ao seu ciclo de poder.
Não se trata apenas de um embate narrativo, em que versões concorrentes disputam a interpretação do passado. Há um obstáculo mais concreto: a dificuldade de sustentar um discurso oposicionista consistente contra um modelo de gestão que construiu sua identidade política justamente na superação de problemas atribuídos às administrações anteriores, inclusive as suas.
Assim, o ex-governador se vê diante de uma equação difícil de resolver: quanto mais se ancora no passado para manter relevância, mais alimenta os fatores que elevam sua rejeição. E quanto mais tenta se reposicionar como voz de oposição, mais esbarra nas marcas deixadas por sua própria trajetória administrativa.
O resultado é uma campanha tensionada por uma contradição central: o mesmo legado que garante competitividade imediata é, simultaneamente, o principal entrave para uma eventual volta ao poder.
O discurso que cobra o autor
O atual ciclo governista consolidou-se com base em indicadores que operam como contraste direto ao legado tucano. A queda consistente dos índices de criminalidade, o enfrentamento mais incisivo às organizações criminosas e o reequilíbrio fiscal do Estado foram alçados à condição de vitrines políticas.
Nesse contexto, cada crítica de Marconi ao presente o empurra, inevitavelmente, para uma explicação sobre o passado. Por que áreas sensíveis, como segurança pública e finanças estaduais, apresentaram deterioração sob sua gestão e passaram a registrar melhora nos governos subsequentes? Essa pergunta, ainda que implícita, atravessa sua pré-campanha.
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