O governo de Donald Trump volta a dar sinais de que pretende tensionar sua relação com o Brasil ao mirar o Pix, sistema de pagamentos instantâneos que se consolidou como uma das maiores inovações financeiras do país.
Ao classificar o modelo brasileiro como uma suposta “prática desleal”, sob o argumento de que prejudica gigantes como Visa e Mastercard, Washington não apenas revela o incômodo com a perda de espaço de empresas americanas, como também expõe uma postura intervencionista que flerta com a violação da soberania nacional.
A abertura de investigação pelo USTR, com a ameaça de tarifas que podem chegar a 50% sobre produtos brasileiros, transforma uma disputa comercial em instrumento de pressão política. Nesse contexto, ganha relevo o papel de interlocutores políticos brasileiros alinhados ao trumpismo, como o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão do pré-candidato a presidente pelo PL, Flávio Bolsonaro, cujo lobby em favor dessa agenda levanta questionamentos sobre até que ponto interesses externos estão sendo priorizados em detrimento do país.
O desgaste político interno tende a ser significativo. Aliados do presidente Lula já se movimentam para atribuir à família Bolsonaro a responsabilidade por qualquer sanção que venha a atingir o Brasil, sobretudo se houver impacto concreto sobre o Pix.
A pré-campanha de Flávio Bolsonaro, nesse cenário, torna-se particularmente vulnerável: dificilmente um eleitorado que utiliza massivamente o sistema aceitará com naturalidade a atuação de quem quer que seja para enfraquecer a ferramenta. A narrativa de que ataques ao Pix representam um ataque ao cotidiano do brasileiro comum tem potencial de alto alcance.
Ainda que os Estados Unidos não tenham poder direto para extinguir o PIX, o simples movimento de hostilidade já produz efeitos. O sistema, implantado pelo Banco Central, tornou-se um ativo estratégico da economia nacional. Ao atacá-lo, o governo Trump não atinge apenas uma tecnologia, mas um símbolo de autonomia econômica.