Entre em contato

Política

Ana Paula reescreve Iris e provoca indignação

Ao sustentar que seu pai e Jair Bolsonaro teriam os mesmos princípios, a pré-candidata a vice na chapa do PL goiano provoca reações de indignação e reacende debate sobre memória, legado político e revisionismo histórico

Publicado

on

Iris Rezende foi quatro vezes prefeito de Goiânia e duas vezes governador de Goiás

A declaração da advogada Ana Paula Rezende, pré-candidata a vice-governadora na chapa do PL em Goiás, ao afirmar que seu pai, Iris Rezende Machado, e Jair Bolsonaro tiveram “trajetórias diferentes, mas os mesmos princípios”, provocou fortes reações de indignação entre internautas e nos bastidores da política goiana, sobretudo entre emedebistas.

Na avaliação de críticos da fala, trata-se de um grave equívoco ao tentar reescrever a narrativa histórica para acomodar o legado de Iris em um projeto político que sempre esteve distante de sua biografia. Não se trata apenas de reconhecer diferenças de origem ou estilo, mas de admitir trajetórias marcadas por valores e posicionamentos públicos frequentemente vistos como incompatíveis.

Iris iniciou sua vida pública no movimento estudantil e foi cassado pela ditadura militar em 1969, durante seu primeiro mandato de prefeito de Goiânia; Bolsonaro construiu sua carreira na caserna e, ao longo de décadas, manifestou reiteradas posições favoráveis ao regime militar e elogios a personagens ligados à repressão. Enquanto um participou da reconstrução democrática, o outro tornou-se símbolo de um discurso que relativizou os abusos cometidos durante aquele período e terminou seu mandato tentando repetir a mesma exceção que cassou Iris no passado.

As diferenças também aparecem na forma de compreender a própria atividade política. Iris construiu sua imagem como gestor voltado para políticas habitacionais, inclusão social, diálogo institucional, valorização da ciência, das universidades e das vacinas, consolidando o apelido de “homem dos mutirões” pela proximidade com a população mais humilde. Para seus admiradores, esse legado contrasta frontalmente com episódios que marcaram a trajetória de Bolsonaro, especialmente durante a pandemia de Covid-19, quando suas declarações e atitudes foram alvo de intensas críticas nacionais e internacionais.

É justamente por esse contraste que muitos enxergaram a comparação feita por Ana Paula como uma tentativa de adaptar a memória de Iris às conveniências do presente político. Quando a história é tensionada para fazer caber um personagem em um espaço que jamais lhe pertenceu, corre-se o risco de enfraquecer a própria força de seu legado e de macular a sua história.

A reação negativa nas redes sociais reflete esse sentimento: para muitos goianos, a memória de Iris Rezende não precisa ser reinterpretada para servir a um palanque, sobretudo quando esse palanque representa uma visão de mundo amplamente percebida como distinta daquela que marcou sua trajetória pública.

Copyright © 2020 - Nos Opinando - Liberdade de opinião em primeiro lugar.