Ao chamar de “demônios” que saem das “catacumbas do inferno” os brasileiros que se manifestam em apoio ao presidente Lula (PT), o deputado federal e senador eleito Gustavo Gayer (PL) ultrapassa a fronteira da intolerância política e flerta perigosamente com a retórica dos regimes fascistas. A fala do deputado ocorreu em entrevista ao canal bolsonarista do jornalista Rafael Vasconcelos.
Não se trata de mero insulto, mas de uma linguagem que retira dos adversários sua condição humana, transformando cidadãos com direitos constitucionais em inimigos a serem combatidos. A gravidade é ainda maior quando se considera o histórico controverso do parlamentar, marcado por episódios policiais e acusações envolvendo mortes no trânsito, drogas e embriaguez ao volante, cujas circunstâncias e desfechos já foram exaustivamente divulgados nas redes sociais.
Gayer parece ensaiar uma espécie de licença moral para perseguir quem pensa diferente. Seu discurso, carregado de ódio, sugere algo muito mais inquietante que a disputa eleitoral: a naturalização da violência contra aqueles que ousam resistir ao bolsonarismo.
A história demonstra que a desumanização do adversário é uma das primeiras etapas da construção de regimes autoritários. Antes de eliminar direitos, o fascismo procura eliminar simbolicamente a humanidade de quem pretende perseguir. É justamente nesse terreno que a retórica de Gayer encontra sua dimensão mais ameaçadora.
Suas declarações podem ser interpretadas como um prenúncio do ambiente político que setores radicais do bolsonarismo desejariam estabelecer caso Flávio Bolsonaro chegue à Presidência: uma democracia formalmente preservada, mas progressivamente esvaziada pela criminalização da oposição e pelo constrangimento à resistência.
As manifestações de Flávio sobre mudanças constitucionais, alterações no Judiciário e no sistema de reeleição tornam ainda mais preocupante esse cenário, embora não comprovem a existência de um projeto coordenado de repressão. O perigo está em transformar divergência política em ameaça existencial, criando justificativas para medidas de exceção.
Quando um representante eleito passa a tratar milhões de brasileiros como demônios, o que está sob ataque já não é apenas a esquerda, mas o próprio princípio democrático de que ninguém precisa pensar igual para ter o direito de existir, discordar e participar da vida política.
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