Há um problema cada vez mais evidente na ofensiva de Flávio Bolsonaro (PL) contra personagens que aparecem relacionados a Daniel Vorcaro: a régua usada pelo candidato à Presidência parece mudar quando o personagem é ele próprio. A cronologia é reveladora. Em março, Flávio negava conhecer Vorcaro. Em 13 de maio, diante da informação de que o ex-banqueiro financiara o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, reagiu dizendo que era “mentira”. Horas depois, com a divulgação de áudios e mensagens, admitiu que conhecia Vorcaro e que negociara o patrocínio.
A justificativa para a negativa anterior foi uma cláusula de confidencialidade. Depois, reconheceu também ter procurado Vorcaro após a primeira prisão do banqueiro, encontro que anteriormente não mencionara. Documentos da Polícia Federal posteriormente apontaram Flávio como interlocutor direto nas negociações do financiamento. Os repasses ligados ao projeto chegaram a pelo menos R$ 65 milhões, segundo informações tornadas públicas nas investigações.
Flávio sustenta que não recebeu pessoalmente dinheiro ou vantagem e que os recursos eram destinados à produção cinematográfica. O episódio mais recente, porém, torna sua estratégia política ainda mais vulnerável à acusação de duplo padrão. No domingo, Flávio explorou duramente o vídeo de Alexandre de Moraes desembarcando de um jato ligado a Vorcaro. Chamou o episódio de evidência do que considera o aparelhamento do Estado.
Três dias depois veio o espelho. Reportagem da revista Piauí revelou que o próprio Flávio, a mulher e as filhas viajaram, em janeiro de 2025, de Fort Lauderdale para Brasília justamente no mesmo Legacy 650. À época, uma das cotas da aeronave pertencia à Prime You, empresa da qual Vorcaro era sócio. A viagem ocorreu durante o período das negociações para o financiamento de “Dark Horse”. Flávio não respondeu aos questionamentos da revista.
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