O escândalo do Banco Master produziu uma curiosa hierarquia de indignações. O ministro do STF Alexandre de Moraes virou personagem praticamente onipresente no noticiário — e deve mesmo ser escrutinado. Há mensagens, encontros, contratos envolvendo o escritório de sua mulher e suspeitas graves que precisam ser esclarecidas.
Mas a mesma lupa parece perder alguns graus quando se desloca para Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência. A pergunta é simples: por quê? Se o critério é interesse público, poucas coisas deveriam despertar mais atenção do que a relação entre um presidenciável e Daniel Vorcaro, personagem central de um dos maiores escândalos financeiros recentes do País.
No caso de Moraes, parte relevante do material recuperado registra mensagens enviadas por Vorcaro; a própria Folha ressalta que, em determinados trechos, a PF apenas suspeita da identidade do interlocutor e que a extração não recuperou eventuais respostas.
Os documentos também não demonstram, por si, que pedidos do banqueiro tenham sido atendidos. Isso não diminui a gravidade das suspeitas nem dispensa investigação. Apenas recomenda cautela antes da sentença pública. Já Flávio aparece em outro capítulo politicamente explosivo do Master: o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro.
O próprio senador admitiu ter procurado Vorcaro para buscar recursos para o projeto, embora negue recebimento pessoal ou contrapartida ilícita. Reportagens apontaram repasses milionários para a produção, enquanto documentos mais recentes do caso voltaram a pressionar sua campanha.
É aí que a régua jornalística merece ser questionada. Moraes deve ser investigado? Evidentemente. Mas por que um candidato ao Planalto envolvido em relações financeiras e políticas com o mesmo banqueiro não merece escrutínio proporcional?
É preciso ampliar o foco
Concentrar os holofotes quase exclusivamente em Moraes acaba produzindo um efeito político objetivo: facilita a narrativa eleitoral que transforma o Master numa crise essencialmente do STF e de personagens associados ao governo Lula, deixando Flávio em posição mais confortável para explorar o escândalo do qual ele próprio também precisa prestar esclarecimentos.
Jornalismo não deveria escolher previamente quem merece a lupa. No caso Master, talvez esteja faltando justamente ampliar o foco.
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