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Política

A democracia também morre pelo silêncio

“Nenhuma geração escolhe o momento histórico que lhe cabe viver, mas cada uma responde pelas decisões que toma diante dele”

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Invasão dos prédios dos Três Poderes marcou o ápice da tentativa de golpe, em 2023

Temos o privilégio de viver um momento decisivo da história, mas muitos parecem incapazes de compreender a responsabilidade que carregam. Pelo voto, pelas atitudes e até pelo silêncio, participamos da construção do futuro. Podemos transformar a realidade ou legitimar tragédias que outras gerações não conseguiram impedir. É um equívoco monumental confundir omissão com superioridade intelectual, como fazem aqueles que se apresentam como “isentões”, revestindo de falsa sabedoria a recusa em assumir responsabilidades diante de ameaças à democracia.

A ascensão da extrema-direita pelo mundo não revela apenas uma circunstância política, mas também inquietantes aspectos da condição humana: a intolerância, o egoísmo e a facilidade com que o ódio se transforma em identidade coletiva. A história oferece advertências eloquentes. Há 62 anos, sob o discurso de “Deus, pátria e família”, setores da sociedade brasileira apoiaram o golpe militar que mergulhou o país em 21 anos de ditadura, perseguições, torturas, mortes e desaparecimentos.

Na Alemanha nazista, a desumanização dos adversários, o racismo e a perseguição às minorias pavimentaram o caminho para o Holocausto, que exterminou seis milhões de judeus. Embora sejam experiências historicamente distintas, os mecanismos de intolerância e desumanização merecem permanente vigilância.

O Brasil de hoje enfrenta novamente o desafio de preservar a democracia diante da radicalização política e da banalização de discursos autoritários. O bolsonarismo recuperou símbolos e palavras de ordem associados ao passado autoritário brasileiro, enquanto a hostilidade aos adversários se tornou elemento recorrente da disputa política.

Não significa que a história esteja condenada a se repetir, mas que ignorar seus ensinamentos pode abrir caminho para novos retrocessos. A neutralidade, quando serve de pretexto para relativizar a violência, a perseguição e a supressão de direitos, deixa de ser prudência e se aproxima da conivência.

Nenhuma geração escolhe o momento histórico que lhe cabe viver, mas cada uma responde pelas decisões que toma diante dele. Daqui a 50 anos, nossos netos e bisnetos poderão olhar para este período e perguntar que papel desempenhamos quando os valores democráticos foram colocados à prova.

Teremos sido capazes de defender a liberdade, a dignidade humana e o direito à divergência ou teremos preferido o conforto da indiferença? A história não exige heroísmo de todos, mas certamente não absolve a covardia travestida de isenção.

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